segunda-feira, 3 de julho de 2017

Terminal



                Acordou e encontrou o espaço a seu lado na cama vazio. Ela já tinha se levantado, feito café, escolhido um dos livros novos sobre a cômoda e puxado uma cadeira da sala para o quarto. Tinham passado algumas noites juntos nas três semanas em que se conheciam, mas ela nunca tinha saído da cama sem ele, explorado o apartamento, feito café. Era sábado e ela se sentiu à vontade em sua casa. Aquilo não o incomodou.
                Ela levou uma xícara de café para ele. Colocou-a sobre o criado-mudo e pegou um dos livros da pequena pilha que havia ali.
                “Eu adorei esse livro. Você gostou?”
                “Eu parei antes da metade. Não curti.”
                Foi numa livraria que se conheceram. Conversaram entre cafés e estenderam aquele fim de tarde o máximo que puderam. Quando ele foi embora, depois de marcarem uma saída juntos na noite seguinte, ela comprou uma cópia do livro que ele estava levando. Parecia ser bom – e era! Ela leu em três dias e se apaixonou.
                “Acho que você devia dar outra chance pra ele.”
                “Eu também acho. Daqui uns dias, talvez.”
                Não era muito de dar segundas chances para livros dos quais desistia, principalmente tão cedo, mas não teve dificuldades para se convencer. Beijou-a na perna, terminou a xícara e foi até a cozinha buscar mais.
                Na sala, o telefone tocou. Voltou para o quarto minutos depois.
                “Aconteceu alguma coisa?”, ela perguntou ao ver seu rosto um pouco assustado, quase em choque, e triste.
                “O seu Antônio morreu.”
                “Quem?”
                “O seu Antônio da estação. Acho que não te contei a história.”
                “Não.”
                Ele começou a contar a história, mais ou menos assim:
                “Eu cresci numa cidade de quarenta, cinquenta mil habitantes. Saí de lá pra fazer faculdade aqui. Quando eu tinha uns dez anos, inventaram de construir uma nova estação de trem. Seria mais moderna, mais segura, boa para a cidade. Disseram que ia aumentar o turismo. Pra ver o quê, eu até hoje não sei.
                “A construção foi bem rápida, que eu me lembre. Fizeram a estação em um bairro novo da cidade, que foi crescendo junto com a obra. Abriram lojas, lanchonetes, alguns mercados, um hotelzinho, e muita gente resolveu morar por lá. Um pouco mais de dois anos depois do anúncio da obra, a nova estação tinha data de entrega e inauguração marcada. E quando esse dia chegou, o seu Antônio arrumou uma mala pequena e foi pra lá. Queria viajar no primeiro trem da estação nova.
                “Só faltava um detalhe. Os trilhos.”
                “Mentira!”
                “Sério. Precisavam construir os trilhos da entrada da cidade até a nova estação, e da nova estação até a saída da cidade. A prefeitura não tinha dinheiro. O governador do Estado ignorou os pedidos do prefeito, mesmo eles sendo do mesmo partido. E a empresa que cuidava da ferrovia disse que não estava nem sabendo de uma nova estação. Hoje eu sei que a estação deve ter sido esquema do prefeito pra desviar o que existia e o que não existia. Antigamente, precisava fazer umas obras grandes pra desviar dinheiro, roubar merenda de criança ainda não era algo aceito por tanta gente.
                “Enfim. Todo mundo já sabia que não ia ter inauguração nenhuma. A história tinha virado piada na cidade toda. Só o seu Antônio foi pra lá.”
                “Mas por quê?”
                “Deve ter ficado louco, dado alguma coisa na cabeça, não sei. Ele passou a noite na estação, dormindo num banco da plataforma, e no dia seguinte a mesma coisa. Ficou esperando. Avisaram a família e a polícia, que foram até lá, mas ele só dizia que não podia sair dali porque estava esperando o trem.
                “Ele tinha uns cinquenta anos e trabalhou na obra da estação com pequenos serviços. Também ajudou a construir quase todas as lojas que surgiram nas ruas do bairro. A dona Célia, esposa dele, dizia que ele acreditava que a nova estação seria boa para os negócios da cidade, que iria gerar dinheiro, que ele falava com brilho nos olhos do quanto a ferrovia tinha sido importante para a cidade onde cresceu, e que não tinha percebido nada de errado com o seu Antônio até o prédio ficar pronto e ele continuar ansioso para a inauguração que todo mundo sabia que não aconteceria. No dia marcado, ele arrumou a mala e foi para a estação.
                “E por lá ele ficou. Nunca saiu do prédio, nem mesmo quando a dona Célia morreu depois de uns anos. Dizem que ele não reconheceu o nome quando deram a notícia, mas pareceu ficar triste. Quando perguntaram se ele iria ao velório e o enterro, ele respondeu ‘É uma pena, mas eu preciso ficar aqui. Estou esperando um trem.’ Depois disso, o único filho do seu Antônio foi embora da cidade, acho que pra não voltar mais. Imagina a cabeça desse cara...”
                “Ninguém cuidava dele? Do seu Antônio?”
                “O pessoal do bairro e da cidade sempre levava comida pra ele, cobertor no frio, essas coisas. Era meio que parte da cidade, uma instituição. A estação abandonada e o seu Antônio.
                “Acabou virando um ótimo lugar pra brincar. De manhã, a estação vivia cheia de crianças correndo pra cima e pra baixo, enquanto o seu Antônio só falava pra gente tomar cuidado na plataforma. No fim da tarde, uma molecada mais velha ia lá pra fumar e beber escondido, o ele dizia que era errado e não fazia bem, mas sempre pedia um cigarrinho e vira-e-mexe aceitava uma dose de vodca. Não sei quantas vezes eu levantei meu copo pra ele e disse ‘Saúde, seu Antônio!’
                “Eu perdi bastante contato quando fui crescendo e nem lembrava dele direito depois que mudei pra cá. Perguntei dele pra minha mãe no último Natal e ela disse que estava na mesma. Ainda lá, esperando o trem. E ontem ele morreu. Foram levar algo pra ele almoçar e ele estava no banco da plataforma, sentado do lado da mala.”
                Ela havia ouvido a história quase em silêncio e tinha lágrimas nos olhos.
                “Que parada triste,” disse.
                “É mesmo,” disse ele. “A gente vai almoçar?”
                “Parece história de livro.”
                “Sério?”, ele perguntou.
                “Eu achei bem metafórica. Ele sabia o que queria, acreditava que aquilo seria bom pra ele e não se contentou com outra coisa. Ele fez o que podia, e quando não dependia dele, ele esperou. É bem triste, ainda mais porque é verdade, mas é muito bonito. Tem todo um significado.”
                “Nunca tinha pensado nisso.”
                “É que você faz parte da história. É normal.”
                Ele entrou no banheiro para escovar os dentes e fechou a porta.
                “Falei com as meninas aqui,” disse ela, terminando de se vestir, “elas querem comer feijoada e chamaram. Aí você aproveita e conhece elas. Vamos?”
                Ele saiu do banheiro já vestido e com o olhar distante, e triste, parecido com o que tinha ao desligar o telefone mais cedo.
                “Acho melhor você ir.”


Tyler Bazz

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Processo de composição



                Mateus conferiu mais uma vez a afinação da guitarra e olhou a seu redor, gesto que repetia com frequência quase obsessivo-compulsiva na última hora. A cada poucos minutos, às vezes segundos, corria os olhos pelo ambiente, reparando a presença de pessoas esperadas e inesperadas, e principalmente a ausência das que ainda não tinham chegado, algumas das quais não chegariam. Suas mãos transpiravam e seu corpo parecia vacilar, reações que já conhecia. Esses efeitos da ansiedade desapareciam assim que respirava fundo antes da primeira música.
                Abriu uma segunda cerveja, embora preferisse evitar beber antes de subir ao palco. Gostava da experiência mais pura, dizia, de poder ler o público sem filtros. Sentia-se mais nervoso do que achava normal. Sempre se sentia mais nervoso do que achava normal. Verificou a configuração dos pedais. Cada rosto familiar que encontrava – alguns amigos, cerca de três dezenas de conhecidos e até duas ex-namoradas – aumentava sua ansiedade.
                Conferiu mais uma vez a afinação da guitarra, a configuração dos pedais, a conexão dos cabos. Mexeu nos cabelos, respirou fundo e o nervosismo desapareceu. Era hora. Os outros dois terços da banda juntaram-se a ele. Começaram.
                As luzes do palco nunca lhe agradaram, e nunca esteve à vontade com toda a atenção de uma apresentação ao vivo. Nesta noite, porém, tocou com a cabeça ainda mais baixa do que de costume, dois passos mais próximo da bateria, como se a qualquer momento fosse saltar e se esconder atrás dela. Os olhares o perseguiam, tinha certeza, e apesar de ver que cabeças e corpos se deixavam levar pela música, estava convencido de que todos na plateia tinham incontáveis motivos para não gostar dele – inclusive o punhado de amigos, os quase cinquenta conhecidos e as agora três ex-namoradas.
                Tentou se lembrar de quando havia escrito as melodias que agora tocava. Não fazia tanto, mas elas lhe soavam como outro idioma, incapazes de dizer algo a qualquer uma daquelas pessoas que as ouviam. Era como se ele saísse do palco e passasse a falar esloveno em um bar no centro de São Paulo. Sentiu o distanciamento, seu peso, e sentiu falta de falar a mesma língua de quem o rodeava. Quando terminaram, esforçou um sorriso, acenou e demorou o quanto pôde para guardar seu equipamento, a ponto de irritar o artista que tocaria em seguida. Saiu escondido pelos fundos, escapando de qualquer olhar de aprovação, abraço ou elogio que não saberia dizer se era ou não sincero.
                Comprou um maço de cigarros e duas garrafas de vinho. Foi direto para casa. Tinha tanto a dizer àquelas pessoas, tanto às presentes quanto às ausentes. Precisava agradecer, cobrar, tirar pesos das costas, questionar e muito mais. Queria voltar a falar com cada uma delas, individualmente ou não, em sua própria língua. Sentou-se no colchão em que dormia na sala, caderno e lápis em mãos, conferiu a afinação do violão. Estava decidido e entusiasmado como há tempos não ficava. Escreveria um disco de cartas para as pessoas de sua vida, conseguiria de fato falar com cada uma delas. Um gênero diferente do seu, cara nova, tudo, e algo que todas elas entenderiam.
                Fumava na janela, alternando a vista entre o céu nublado e os prédios de janelas estreladas que formavam o horizonte. O vinho descia macio, deixando as canções mais claras, simples e prontas em sua cabeça. Ouviu Tom Waits para se inspirar, ouviu Leonard Cohen. Vai ficar tudo bem porque eu vou conseguir dizer tudo, pensou, e então a distância vai diminuir e ninguém vai ficar sozinho, e todo mundo vai se entender melhor. Levou o caderno à janela, até mesmo a luz dos apartamentos próximos ajudava. Acendeu mais um cigarro, serviu-se de mais vinho, chegou a se comover quando a lua apareceu entre as nuvens.
                Os cigarros acabaram, o vinho subiu e a adrenalina baixou. Dormiu ao lado do violão desafinado, o caderno em branco. Mateus não escreveu nenhuma canção.

Tyler Bazz

quinta-feira, 2 de março de 2017

Cinco histórias de seis palavras (sobre os sentidos)


Audição: a Filarmônica não lhe emocionava.

     * * *

Olfato: nariz em pé, perfume falsificado.

     * * *

Paladar: sem sal, mesmo assim, cardíaco.

     * * *

Tato: pretenso Midas, Medusa do toque.

     * * *

Visão: míope, daltônico e ainda conservador.



Tyler Bazz

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A última parada



As batidas na porta de casa aumentavam em frequência e intensidade, como os raios e trovões distantes que eu observava pela janela. Em cidades muito grandes – e poucas são maiores que a minha –, sempre fico imaginando onde é a chuva quando começo a ver relâmpagos. Em um bairro pode cair o mundo, enquanto em outro está nublado e num terceiro pode até fazer sol.

Três dias antes, eu estava em uma cidade tão pequena que qualquer chuva banharia seus quatro cantos ao mesmo tempo. Cheguei à hospedaria, que se anunciava como hotel e deve ser o menor que já vi, um sobrado com três suítes no andar de cima, a sala no andar de baixo funcionando como recepção e a cozinha indisponível para hóspedes. Ocupei o maior dos dois quartos com vista para a rua, não havia outro cliente. O cômodo tinha um banheiro simples e limpo, um armário pequeno – que abri com cuidado redobrado ao guardar a mochila – uma cama de casal e uma escrivaninha com cadeira em estilo antigo, onde passei um par de horas concentrado, traçando possíveis planos a lápis em papel de rascunho. Era isso que tinha feito durante boa parte do meu tempo acordado nesses últimos dias. Eu precisava me distrair.

Rasguei os papéis de rascunho, queimei com um isqueiro e joguei as cinzas pela descarga. O dia ainda estava claro, embora o relógio já indicasse noite, e saí em busca de uma cerveja. Andei até uma ponta da cidade e não achei nenhum tipo de comércio aberto, bar, nada, e com a perspectiva de não encontrar uma cerveja que fosse, comecei a ser tomado por uma preocupação que poderia ser vista como desproporcional, considerando minha situação.

A preocupação, porém, só aumentou meu alívio quando vi, já perto do canto oposto da cidade, um bar pequeno, com decoração que tentava se passar por moderna e mesinhas redondas na calçada. Fazia parte do segundo e maior hotel dali – este, numa casa de três andares! Me sentei do lado de fora, pedi um chope para a senhora simpática que cuidava tanto do bar quanto da recepção do hotel e tentei relaxar enquanto o sol se aproximava lentamente do horizonte.

O relaxamento durou pouco. Na metade da bebida, um táxi virou a esquina e veio em minha direção. Desloquei um pouco o corpo para fora da mesa e segurei firme o copo de vidro, por via das dúvidas. Também durou pouco minha tensão. Uma garota que não devia ter muito mais que vinte anos desceu do carro. Usava uma camiseta que dizia “Really good at bad decisions” e, enquanto entrava no hotel, me olhou como se estivesse pronta para tomar mais uma.

Eu poderia dizer que não me lembrava da última vez que tinha visto uma mulher tão linda, mas seria apenas força de expressão. Eu sabia cada detalhe, quando, onde, quem. Quando você perde tudo, fica difícil se esquecer das últimas vezes.

Pouco tempo depois ela saiu do hotel e parou na calçada por alguns segundos, observando a queda tardia da noite, antes de ir até a mesa onde eu estava e oferecer companhia. Aceitei e estava pronto para perguntar o que beberíamos quando a dona do hotel nos trouxe duas taças de vinho, que ela já havia pedido. De todos os planos que eu andava traçando em papel de rascunho, nenhum deles envolvia me apaixonar por alguém, nem mesmo me deixar encantar, mas ela já começava dificultando muito as coisas.

“E o que te traz aqui?”, perguntei, depois de nos apresentarmos.

Ela respirou fundo e bebeu um gole antes de responder: “Eu estive aqui por uns dias, três anos atrás. Aí quando as coisas não estão muito boas, ou sempre que eu posso, eu volto pra tentar viver um pouco daquela felicidade. Eu tenho lembranças muito boas daqui.”

Era mentira, eu sabia. Já tinha usado uma versão muito parecida da história em vários hotéis, hostels e cafés pelo mundo. É o tipo de coisa que você diz quando quer pegar alguém – porque se você convence a pessoa de que um lugar é especial para você, cheio de memórias felizes, e então convida essa pessoa para fazer parte da sua vida, do seu dia ou da sua noite, misturando-se com todas as boas lembranças do lugar, não costumam resistir. Aquele era o tipo de mentira que me deixava feliz.

“E você?”, ela perguntou.

“Exatamente a mesma coisa!”, respondi, com os olhos arregalados.

Ela riu e eu fiquei feliz outra vez.

“Meu carro quebrou aqui perto”, menti. “Tem conserto, mas só amanhã.”

“Que saco, hein?”

“Achei que seria pior.”

A cidadezinha ficava belíssima com as luzes acesas à noite. Havia dias que eu não ficava tão tranquilo, apesar da apreensão que percorria meu corpo cada vez que alguém passava pela rua, ou quando a outra mesa da calçada foi ocupada por três pessoas que demoraram a me convencer de que eram inofensivas. Com o tempo, relaxei de verdade. O vinho ajudou, a conversa e minha companhia também, e algumas taças e várias mentiras depois, subimos para o quarto dela.

Horas depois, eu me vestia e ela fumava um cigarro nua na cama, soltando a fumaça pela janela aberta, por onde entrava uma brisa com cheiro de chuva.

“Tyler...”, ela disse.

Se você está sozinho com uma pessoa e ela usa seu nome antes de dizer algo, em vez de simplesmente dizer, sempre é importante. Por isso nós temos essa sensação estranha quando nos chamam pelo nome. No meu caso, porém, a sensação foi bem pior que estranha. Quando ouvi meu nome verdadeiro, e não o que tinha dito a ela, minhas pernas perderam a firmeza, o suor ficou gelado sobre minha pele e eu me senti muito, muito mal. Tinha certeza de que as notícias não seriam nada boas. Eu queria mais vinho, precisava, até, mas não beberia se tivesse algum no quarto. Respirei fundo e estendi a mão pedindo um cigarro, não fazia mais sentido tentar parar.

“Já sabem?”, perguntei.

“Estão vindo atrás de você, e a ordem é não te deixar vivo.”

“E você?”

“Eu fiz uma puta cagada.”

Cruzei a pequena cidade com atenção triplicada e máximo cuidado ao dobrar cada esquina e passar por cada árvore, poste ou lugar escuro. Entrei no hotel pelos fundos, sem ser percebido por ninguém, e arrumei minhas coisas o mais rápido que pude. Fechei a janela e passei o que restava da noite sentado na cadeira, sem tirar os olhos da porta.

Antes de amanhecer, embarcava no primeiro ônibus. Ainda pegaria mais um para chegar a um dos últimos lugares onde me procurariam, acreditava eu. Minha cidade grande, enorme, com seus vários climas ao mesmo tempo.

Se era para ficar em perigo, eu ficaria em casa.


Tyler Bazz

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Luzes

O celular vibrou no bolso de dentro da minha jaqueta e eu fingi que não era comigo. Ainda estava puto com ele por causa das notícias que tinha recebido mais cedo. Ele, o celular. Tenho certeza de que eu não sou o único que faz isso, associar sentimentos e acontecimentos a objetos e lugares e comidas. Sorte de quem não faz. E foi meio por isso, meio por burrice que, dez minutos antes de o celular me deixar puto, eu fui parar naquele bar que cheirava a fritura e pedi uma taça de vinho que custava mais do que deveria. Não que eu entenda alguma coisa de vinhos, mas eu sei que quando pago o que paguei pela taça, o vinho costuma ter um gosto melhor. Essa é uma das coisas que boas lembranças provocam, elas fazem a gente gastar dinheiro em tentativas ridículas de recordar ou reviver qualquer coisa, por menor que seja, de uma época, um evento, uma noite especial. O meu gasto desnecessário era para lembrar a sensação de estar no centro das atenções de alguém por algumas horas, esse tipo de coisa que faz a gente se sentir interessante.

Minha tentativa envolvia beber sozinho num bar praticamente vazio e frequentado por gente de quem eu não queria atenção nenhuma, mas isso não vem ao caso.

E eu não queria de fato reviver o que tinha acontecido. Mas eu estava tendo um dia difícil, a data trazia memórias demais à cabeça.

Meses antes, na noite com as sensações das quais eu queria me lembrar, ela e eu chegamos ali já meio bêbados. Eu mais que ela, desconfio até hoje. Fomos pela comida, um clássico, barato e que “não fica muito melhor que isso”. O vinho, apesar de não ser a harmonização ideal, por assim dizer, foi escolhido porque queríamos tirar a dúvida de tantas noites: é vinho depois de cerveja ou cerveja depois de vinho que te deixa mal? Não chegamos a nenhuma conclusão, esquecemos o assunto antes mesmo de a primeira taça acabar.

O celular vibrou outra vez, agora, insistindo. Atendi depois de ver quem era.

“É dois mil e dezesseis. Você é a única pessoa que ainda liga pra falar com alguém.”

“E uma das poucas que conseguem falar com quem quer, quando quer”, o João respondeu.

“Justo”, aceitei, enquanto pagava a conta com uma nota de vinte e deixava o troco para trás.

“Fala.”

“Onde você tá?”

“Tomando uma, na Augusta.”

“Boa. A gente tá indo pro Central. Passamos aí em três.”

“Cara, eu não sei se vai rolar.”

“Vai rolar sim.”

“Tá frio, tá chovendo e...”

“Eu não vou deixar você não ir. Eu sei que dia é hoje.”

O reflexo dos sinais de trânsito no chão molhado era bonito e me deixou um pouco menos deprimido. Uma onda de quase otimismo passou por mim. Talvez a noite acabasse melhor do que eu esperava, talvez eu não precisasse me sentir tão mal. Perceber que alguém se importava comigo o suficiente para ligar numa sexta à noite, naquela sexta à noite, e me obrigar a não ficar sozinho e triste chegou a me comover. Deixei de resistir e fui.


Era cedo e a entrada estava tranquila no Central, sem filas. Paulo, o segurança, perguntou como estávamos e jogou um pouco de conversa fora. Nós entrávamos sem ser revistados, um privilégio de poucos, mas que não fazia diferença alguma. Marina, a hostess, não me reconheceu, nem nos deu qualquer tipo de tratamento especial. O atendente do bar acenou assim que nos viu entrar, estendeu a cerveja quando cheguei ao balcão e me cumprimentou enquanto tomava o número da comanda.

Amigo do segurança, amigo do cara do bar, completamente ignorado pela hostess. Talvez isso seja um ótimo retrato de como andava minha relação com as mulheres.

Mas, em minha defesa, não é todo mundo que conversa com o segurança da balada, que só ouve a voz de muita gente em forma de desaforo. Não é todo mundo que passa boa parte da noite, toda semana, com os cotovelos apoiados no balcão do bar. Já a hostess tem que aturar, de cada homem que passa por ela, uma frase desnecessária, um sorriso ensaiado, um olhar longo demais. Ela precisa filtrar, bloquear e ignorar até mesmo quem frequenta o lugar mais do que deveria – o nosso caso. E mesmo que não fosse esse o motivo, quem vai dizer que ela é obrigada a fazer mais que seu trabalho?

Depois de um brinde discreto e mudo, João e eu fomos para a pista. Um dos motivos para frequentarmos tanto o Central era a música, que variava entre noites e também na mesma noite, cobrindo boa parte de tudo o que gostávamos e às vezes saindo um pouco do que a gente costumava ouvir. Som novo, fora da nossa zona de conforto.

Zona de conforto musical. Meu Deus.

O DJ, um semiconhecido meu, acenou com a cabeça quando passei por ele. Ninguém mais pareceu me notar ali, o que é algo entre um bom e um mau sinal quando se está numa pista de dança. O João encontrou um amigo, acompanhado de mais três ou quatro pessoas (eu nem sempre sabia quem estava no grupo e quem só estava por perto). Fomos até eles.

“Oi, prazer, tudo bem?...” etc., eu não ouvia o nome de ninguém, mas isso ainda conta como conhecer gente nova, certo? Espero que sim. Mas nem dois minutos depois eu já estava em silêncio, rodeado de pessoas dispostas a conversar. Esse é um problema de conhecer gente nova, para mim, eu nunca tenho algo interessante para dizer, então fico quieto. Talvez, se falasse coisas interessantes, eu não começaria noites de sexta pagando caro demais em vinhos e sonhando com o passado.

Quando ela foi embora, essa foi uma das poucas e vagas coisas que me disse, que eu não falava muito, que era quieto demais, que a gente quase não conversava. E talvez hoje ela esteja com um locutor de rádio, ou um desses caras que não param de falar nunca, monopolizam todas as conversas, convencidos de que o mundo gira a seu redor e de que é um privilégio que possam ouvi-los, mesmo que os ouvidos das pessoas ao redor comecem a sangrar. Seu típico Dean Moriarty. Sempre tive a impressão de que as pessoas dizem querer um bom ouvinte, até encontrarem um. Mas é assim o ditado, “cuidado com o que deseja”, certo?

O DJ tocou uma música dos Stones e eu comecei a dançar, ainda tímido, desajeitado por estar sóbrio, ou sem o inebriamento para disfarçar minha falta de jeito. Até hoje não sei qual é meu caso. Mas tenho certeza de que Keith Richards compõe para nós, os desajeitados – quanto aos sóbrios, eu não apostaria, mas quem sabe? Olhei em volta. Dentro ou fora do nosso meio círculo, nenhum olhar me procurava e nenhum sorriso era para mim, como eu declarava que normalmente acontecia, embora sempre me respondessem que as coisas não eram bem assim.

A música terminou e a seguinte era bem menos conhecida e um número razoável de pessoas deixou a pista. Um dos piores tipos de pessoas, as que só dançam as músicas que já conhecem. Quem sai de casa e paga – nem sempre pouco, diga-se – para entrar num lugar e ouvir suas músicas favoritas? Eu posso falhar na hora de conhecer novas pessoas, ou de lidar com coisas que aconteceram, e até mesmo em questão de gosto musical, mas sou incapaz de compreender quem faz isso. Resolvi dançar com mais vontade, tentando demonstrar minha indignação, mas minha cerveja me traiu e acabou. Eu ainda não estava pronto para não ter uma cerveja na mão, então cruzei a pista e fui até o bar.

“Mais uma”, pedi, estendendo a garrafa vazia sobre o balcão.

“Tudo certo, cara?”, Daniel, o bartender perguntou.

“Tudo tranquilo”, respondi.

“Tá com cara de desanimado.”

“É a vida”, ofereci minha melhor expressão de ‘fazer o quê?’, perfeita para transformar uma reclamação séria em brincadeira, conversa jogada fora.

“Toma isso aqui”, ele me entregou um copo de shot junto com a cerveja.

“Que porra é essa?”

“Rum.”

E eu bebi.

“Boa!”

“Não é? Esse rum tem uma história boa também.”

Mas o bar estava cheio de clientes e a história precisou ficar para outro dia. Voltei para a pista, já com um sorriso mais fácil no rosto, interagindo melhor com os amigos e as amigas do João e quem mais fosse. Algumas músicas depois, decidimos sair para fumar. Cruzei a pista abrindo um novo corredor entre as pessoas, joguei minha garrafa vazia no lixo e tomei o rumo da saída.

E talvez tenha sido a mistura de vinho, cerveja e rum. Talvez tenha sido meu subconsciente me convencendo de que eu precisava passar por aquilo. A questão é que quando eu vi a expressão de raiva em um rosto conhecido e descontrolado vindo em minha direção, pronto para destruir o copo na minha cara, eu tinha tempo, mas meu braço não fez menção nenhuma de se erguer.


Eu não sei se o copo chegou a quebrar, porque não achei nenhum caco de vidro no meu rosto. O fundo abriu um corte por onde o sangue escorria e a dor foi suficiente para me deixar fora de órbita por um tempo. Ao que me parecia, ele veio na minha direção, bateu o copo na minha cara e sumiu. E eu passei alguns minutos sem saber onde estava.

Quando a adrenalina baixou, percebi que estava atrás do bar, no banheiro dos funcionários – muito mais limpo que qualquer outro canto do Central. Marina estava lá. Mantinha um pedaço de pano sobre o corte com uma das mãos e segurava minha nuca com a outra, movendo os dedos com um toque leve demais para ser o de alguém que não se importava. Falava comigo e me chamava pelo nome. Eu sorri para ela, ela retribuiu.

“Tudo bem aí, cara?”, o Daniel surgiu na porta do banheiro.

“Acho que sim”, respondi, me levantando. Ele voltou para o bar, que agora parecia ainda mais movimentado.

“Caralho, meu! Que filho da puta sem noção! Você sabe quem é? Você deve tá querendo matar ele!”, ela disse, parada ao meu lado, enquanto eu olhava a situação pelo espelho.

Nada como um lugar limpo e bem-iluminado para colocar as coisas em perspectiva.

“Pra ser justo”, respondi, “eu merecia ter apanhado mais.”

“Como assim?”

“Eu meio que ajudei a ferrar com a vida do cara sem quase nenhum motivo,” tentei repetir a expressão ‘fazer o quê?’, mas acho que só consegui expressar dor.

Ela fixou o olhar no meu e pela primeira vez desde que a vi eu tive certeza de que nós treparíamos em algum momento da vida. Incrível como a filha-da-putagem pode ser atraente para algumas pessoas.

Quanto ao Fábio, meu agressor, bem... Não por minha causa, mas sem dúvida com grande participação, ele perdeu a namorada, o emprego e o respeito dos melhores amigos, tudo em um só movimento. Eu não cometi nenhum crime, nem menti sobre nada, mas forcei uma situação da qual era praticamente impossível que ele saísse ileso. E fiz isso só porque ele frequentava alguns dos mesmos círculos que eu. E ele me irrita um pouco. E eu quis me livrar dele. Quem não quebraria um copo na minha cara, né?

O João apareceu na porta, com cara de que só então começava a se acalmar, acompanhado do Paulo, cujo rosto mostrava o incômodo não comigo, mas pela parte cansativa da noite ter começado tão cedo.

“A gente tá segurando ele aí”, disse, “quer que chama a polícia?”

“Não, cara. Relaxa”, respondi.

“Sério mesmo?”, perguntou o João.

“Sério. Só faz a de vocês aí, proíbe o cara de voltar, sei lá. Eu não vou atrás dessa treta, não.”

Olhei para a Marina, sorrindo: “Eu só espero não ter que pagar pelo copo.”

Ela riu. “Nem o copo nem nada. Incluindo a saideira.”


Dez minutos e alguns quarteirões mais tarde, João e eu chegávamos a um bar onde estavam alguns amigos. A chuva causava uma ardência desagradável no meu rosto, mas não era forte o bastante para abrir o corte, que no fim das contas não foi tão profundo quanto poderia. Com uma cerveja na mão e uma diagonal de sangue recém-coagulado na testa, eu chamava alguma atenção.

Entre os amigos, os amigos dos amigos e os conhecidos que passaram por nossa mesa na calçada, contei a história da noite no mínimo três vezes. O João, outras tantas.

Todo mundo se interessava.


Tyler Bazz

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Notinha segoviana

Tem um episódio do Chapolin em que ele vai parar em Vênus. Lá, descobre que as pedras venusianas são um tanto diferentes das da Terra. Algumas voam, algumas são invisíveis, algumas mudam de tamanho e, se não me engano, algumas até falam. Lembrei disso esses dias, sentado ao sol enquanto olhava o Aqueduto de Segovia. A parada foi construída pelos romanos há mais de dois mil anos, e quantas histórias não teriam suas pedras? Poderiam falar com propriedade de guerras ali travadas, reis que subiram ao poder e caíram, um amplo relato da cultura, sociedade e economia da região e, por que não, da Espanha. Além dos tantos amores nascidos e terminados sob os arcos. Fiquei me perguntando o que uma daquelas pedras diria pra mim se eu encostasse pra bater um papo, e é possível que eu tenha sonhado, mas me lembro de estar apoiado em uma das enormes colunas e ouvir uma voz grave, vinda de cima: "Tyler, seu puto inútil. Não consegue empilhar nem três latinhas sem derrubar tudo."

Fiquei tão chateado que voltei pra São Paulo, a desaguada.


Tyler Bazz

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Manhã em Saint-Ambroise



“Dá pra você apagar essa merda?”, pediu Marie, ainda trêmula, ao ver Jean com um cigarro aceso no meio da sala. “Depois a casa inteira fica fedendo.”

“Acho que o cheiro do cigarro não devia ser sua maior preocupação agora, porra,” ele respondeu.

No sofá, coberto por um lençol, o corpo sem vida de Karim, que até poucas horas antes era o morador do apartamento em frente ao do casal. Pouco mais de um metro e meio separava suas portas. Na noite anterior, a música alta que Jean ouvia invadia o apartamento de Karim, que depois de muito tentar dormir decidiu que no dia seguinte tentaria mais uma vez argumentar e pedir ao vizinho que respeitasse o horário avançado. Jean não era um vizinho fácil, mas Karim sempre fora paciente e educado ao tentar resolver os problemas com ele.

Naquela manhã, porém, depois de dormir muito pouco e acordar mais cedo, Karim se exaltou. Foi Marie quem atendeu à porta, convidou-o a entrar e ofereceu café, que ele agradeceu, mas recusou. Jean veio do banheiro em seguida, acordado há alguns minutos pela luz do sol que penetrava na sala. Mal começou a falar, Karim foi interrompido, respirou fundo, tentou se manter calmo, mas na quarta ou quinta ofensa feita em poucos segundos à sua cor de pele, sua religião e sua “origem”, apesar de ser francês, perdeu a cabeça e foi para cima de Jean. Péssima decisão.

Jean era muito mais forte e, ao contrário de Karim, era um homem de natureza violenta. Com dois socos de revide Karim já estava praticamente desacordado e não ofereceu resistência alguma quando foi estrangulado até a morte por Jean, que agora apagava seu cigarro em um pires na pequena mesa que ficava encostada no balcão que separava sala e cozinha.

“O que a gente vai fazer?”, Marie perguntou.

“Não sei, caralho. Me deixa pensar.”

Depois de alguns segundos de silêncio total, Marie sugeriu que levassem o corpo até o apartamento de Karim, ou à entrada do prédio, e chamassem a polícia. Pensariam que foi um assalto, talvez.

“Isso, muito esperta! Você esqueceu como eu ganho dinheiro, porra? Você quer mesmo a polícia xeretando por aqui e fazendo perguntas?”

Jean vendia umas drogas. Não era um grande traficante, não chamava atenção nem tinha registro criminal por isso, mas vendia o suficiente para viver razoavelmente bem sem trabalhar. Mantinha em casa um pequeno estoque de maconha, cocaína e outras substâncias, além de um revólver pouco maior que uma tesoura de cozinha. O trabalho de Marie, como instrutora de hidromassagem, era uma boa fachada, além de mantê-la ocupada e fora de casa durante o dia.

“A gente coloca ele no porta-malas do carro e joga em algum terreno, ou no rio, bem longe daqui,” disse em voz baixa, mais para si mesmo, pensando alto, do que para responder a Marie. “Duvido que alguém vá dar falta dele logo,” – não era verdade – “e quando a polícia achar o corpo, vai perder um bom tempo tentando descobrir se o cara era terrorista. Devia ser mesmo. Eles todos são.”

Não era verdade. Karim levantava cedo todas as manhãs para trabalhar em uma empresa de tecnologia. À noite, ia à faculdade ou estudava em casa para completar sua pós-graduação. Boa parte do que ganhava era para ajudar a mãe e pagar os estudos da irmã, que viviam na periferia de Paris. Dormia cedo, tentava se alimentar bem e sempre prometia a si mesmo que começaria a fazer trabalho voluntário, embora nunca encontrasse tempo. Seu maior arrependimento era ter se afastado dos costumes da religião, que já não praticava, apesar de sentir que isso fazia falta em sua vida.

“E se a gente fosse para fora da cidade? Ele podia ter um enterro digno.”

“Haha! O que mais? Flores e uma bênção, como um bom cristão?” Jean respondeu quase saltando da cadeira, a corrente metálica com o crucifixo pulando junto em seu pescoço. Então se lembrou de baixar a voz. “A gente não devia nem ter que esconder. Fizemos um favor pra todo mundo, antes que ele saísse se explodindo por aí.”

Marie se virou de costas para a sala, mexendo aleatoriamente na pia enquanto Jean trocava de roupa apressadamente no quarto. Será que deveria rezar? Para quem? Desde o começo da adolescência não era religiosa, mas talvez essa fosse a hora de voltar a ser. Com tantos fanáticos por aí, a França e o mundo precisariam cada dia mais de Deus, pensou, enganada.

Jean voltou para a sala e começou a mexer no lençol. “Fica de olho nos corredores e na escada, vê se não tem ninguém. Eu vou ver se a garagem tá limpa, coloco ele no porta-malas e saio. Depois você pega o metrô e vai pro trabalho normalmente. Fica de olho no seu celular, eu te vejo à noite.”

Fizeram isso. Em alguns minutos Jean virava a esquina em seu carro, sem acelerar demais. Poucos segundos depois, a meio quarteirão dali, tiros foram ouvidos na redação do Charlie Hebdo.


Tyler Bazz